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Visão e visibilidade

Este ano tive de renovar a carta de condução, e foi esta obrigação que me veio lembrar que os anos vão passando e por vezes nem damos conta dos impactos e limitações que a idade nos vai impondo.

Uma das avaliações obrigatórias na renovação da carta são alguns testes de visão, onde se verifica a capacidade para, como condutor de um veículo, manter uma maior visibilidade do que se passa à frente e à volta da viatura.   

Mas então qual a diferença entre visão e visibilidade? Pois a primeira refere-se ao sentido humano que permite percepcionar imagens do meio envolvente através dos órgãos de visão, os olhos. Visibilidade é a distância, envolvência e qualidade de observação das coisas ou dos objectos através do olhar, ou seja, da visão.  

Muitos condutores possuem, desde jovens, limitações de visão que obrigam ao uso de óculos ou de lentes de contacto para poderem ficar habilitados a conduzir, e no caso de terem de usar meios de correção e/ou proteção da visão, tal obrigação será validada através de atestado médico e essa restrição terá de ser averbada na carta de condução. Estes testes de visão são mais exigentes para condutores das categorias C, D e E.

Já a visibilidade pode ser afectada por factores extrínsecos ao condutor: iluminação ambiente ou artificial, condições atmosféricas como nevoeiro, chuva, pó ou por outros motivos como obstáculos visuais dentro ou fora do veículo.   

De facto a visibilidade é uma das razões mais importantes na condução, aliada ao conjunto de condições físicas e psicológicas que permitem ao condutor, através do sentido da visão, ver correctamente as coisas ou objectos (acuidade visual), avaliar distâncias e profundidade de campo, avaliar o movimento expectável dos outros utentes, ter a capacidade de distinguir cores (daltonismo), texturas e de adaptar a visão às alterações claro/escuro (visão crepuscular), etc..

Para tomar decisões correctas e atempadas ao nível da condução, o condutor tem de ver bem, avaliar bem e decidir bem, por isso visão e visibilidade são fundamentais para recolher a informação útil e necessária.

Outro factor considerado na avaliação da saúde visual prende-se com o campo visual, ou seja a os ângulos vertical e horizontal que os olhos do condutor conseguem ver, quando focam um ponto, aquilo a que chamamos visão periférica, ou capacidade de ver as coisas “pelo canto do olho”.

Infelizmente, em particular para a emissão ou revalidação da carta das categorias A e B, nem sempre os exames médicos são tão rigorosos quanto deveriam ser, e mesmo que o sejam, por vezes os prazos de revalidação são demasiado longos, propiciando que a visão dos condutores se deteriore, pela idade, doença ou acidente, sem que seja efetuado um controlo médico que permita regular eventuais restrições visuais.

No entanto a visibilidade em cada momento não depende apenas de condições crónicas estabelecidas ou medicamente controladas.  Muitas são as condições que pontualmente afectam todos os condutores, tenham ou não problemas crónicos de visão, e que provocam imagens duplas, desfocadas, visão em túnel, olhos lacrimejantes, “picadas” nos olhos, etc. normalmente resultantes da fadiga, inatenção, influência de bebidas alcoólicas, drogas, medicamentos, condução prolongada em contraluz ou em vias pouco estimulantes.

Algumas destas condições são de resolução óbvia - referimo-nos à condução sob influência de intoxicantes, álcool ou de estupefacientes - basta não os usar ou ingerir, ou em alternativa não conduzir se o tiver feito.  

Para outras condições de falta de vista ou de problemas de acuidade visual, se por exemplo começar a ver mal ao perto ou ao longe, se sentir sinais de cansaço visual (ocular) após períodos de condução, dificuldade em “ler” os sinais ou outras informações escritas, em ver de noite ou com chuva, aconselha-se a consulta num oftalmologista ou um teste de despistagem num optometrista.

Como formador de condução, um dos maiores problemas que noto nos formandos que acompanho em formações de condução na via pública, é a falta de observação do envolvente.  Muitos condutores julgam não ser necessário “olhar” à volta quando decidem fazer uma manobra de mudança de direção ou de mudança de via, como por exemplo ao sair de uma rotunda.  Não estamos a falar de problemas de visão, mas de um problema de visibilidade, ou falta dela.

A visão periférica, fundamental à condução, não cobre mais de 70 graus à esquerda ou a direita de quem olha, contados do ponto para onde se foca o olhar (cerca de 160° no total).  Por isso é necessário ao condutor rodar a cabeça para o lado para onde pretende recolher informação visual, por forma a alargar esse ângulo e reduzir os chamados ângulos cegos.

No sistema de certificação dos condutores desenvolvido na CR&M (Fit4Drive ©) para além de ser efectuada uma auditoria regular do desempenho dos condutores aos níveis da segurança, do conforto, da eficiência energética e da conformidade profissional, são também realizados testes de visão para avaliar eventuais distúrbios que possam ter surgido recentemente e que necessitem de correção ou apoio médico.   

In Eurotransporte n.º 117 por António Macedo - a.macedo@crm.pt – www.crm.pt

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