“A eficiência deixou de diferenciar. Hoje, é o mínimo para competir”
Num período em que o transporte rodoviário comercial redefine as suas bases operacionais, as decisões relacionadas com energia, tecnologia e eficiência financeira passaram a ter um impacto direto na capacidade competitiva das empresas.
A conversa com Tiago Areias, Country Manager da Eurowag em Portugal, parte das conclusões do estudo Transforming Transportation in 2026 e das mudanças que estão a redefinir o transporte rodoviário comercial. Com mais de uma década de experiência no setor, assumiu no final de 2024 a liderança da operação portuguesa, com a responsabilidade de consolidar o posicionamento da empresa e orientar o seu crescimento no mercado nacional.
O seu percurso acompanha a transformação tecnológica e comercial do setor. Entrou na ADS em 2011, como Business Development Manager, onde participou no desenvolvimento de novos modelos comerciais, na estruturação da área de vendas e na integração de soluções tecnológicas. Mais tarde, enquanto National Sales Manager, liderou projetos de expansão e acompanhou a transição dos serviços da ADS para a Eurowag, após a aquisição da empresa.
A experiência acumulada neste processo dá-lhe uma perspetiva direta sobre as pressões que hoje condicionam a atividade: custos energéticos, eficiência operacional, digitalização e necessidade de assegurar a rentabilidade das frotas. São estes os pontos de partida para uma leitura do presente e dos próximos passos do transporte rodoviário.

Que leitura global faz do Market Report “Transforming Transportation in 2026” e do momento atual do transporte rodoviário?
O relatório confirma que o setor atravessa uma fase de transformação estrutural, marcada por três grandes forças: pressão sobre custos, exigência regulatória crescente e aceleração tecnológica. O transporte rodoviário deixou de ser apenas uma atividade operacional para se tornar um ecossistema cada vez mais orientado por dados, eficiência e sustentabilidade. As empresas que conseguirem integrar estas dimensões estarão melhor posicionadas para competir num mercado mais exigente e volátil.
Qual é a principal tendência que irá marcar o setor este ano?
A integração de soluções digitais numa lógica de plataforma única. Já não se trata de adotar ferramentas isoladas, mas sim de consolidar operações (pagamentos, gestão de frota, telemática) num único ambiente digital, permitindo maior controlo e tomada de decisão em tempo real.
A pressão sobre custos operacionais intensificou-se. Quais são hoje os fatores mais críticos?Os principais fatores continuam a ser o preço dos combustíveis, custos laborais, portagens e manutenção. A estes junta-se agora o custo da conformidade regulatória e da transição energética, que exige investimento adicional sem retorno imediato claro.
Como estão os operadores portugueses a adaptar-se a este contexto de maior volatilidade?Os operadores portugueses têm demonstrado uma elevada capacidade de adaptação, apostando na otimização de rotas, controlo rigoroso de custos e, progressivamente, na digitalização. No entanto, ainda existe alguma fragmentação tecnológica que limita ganhos de escala.
A eficiência operacional tornou-se uma questão de sobrevivência ou ainda é vista como vantagem competitiva?
Hoje é claramente uma questão de sobrevivência. Num contexto de margens reduzidas, a eficiência deixou de diferenciar, passou a ser o requisito “normal” para operar.
De que forma a digitalização está a transformar o dia a dia das empresas de transporte?
A digitalização permite automatizar processos administrativos, reduzir erros, aumentar a visibilidade da operação e tomar decisões mais rápidas e informadas. Desde a gestão de combustível até ao cumprimento dos tempos de condução, tudo pode ser monitorizado em tempo real.
Portugal está alinhado com a média europeia no ritmo de adoção tecnológica?
Portugal está relativamente alinhado, mas com assimetrias. As grandes empresas acompanham a média europeia, enquanto as PME ainda estão numa fase mais inicial, sobretudo devido a constrangimentos de investimento e mudança cultural.
Onde estão ainda os maiores bloqueios à digitalização no setor?
Os principais bloqueios são a resistência à mudança, falta de integração entre sistemas e o custo inicial de implementação. Muitas empresas ainda operam com soluções isoladas que não comunicam entre si.
Que papel desempenham plataformas integradas, como as da Eurowag, na simplificação da operação?
Plataformas integradas permitem centralizar operações críticas - desde pagamentos de combustível até gestão de portagens e dados de frota - reduzindo complexidade, aumentando transparência e melhorando o controlo financeiro e operacional.
O enquadramento legislativo europeu está a acelerar ou a travar o setor?
Está a fazer ambas as coisas. Por um lado, impõe desafios e custos adicionais; por outro, está a impulsionar a modernização e profissionalização do setor, criando condições para um mercado mais transparente e sustentável.
Os operadores nacionais estão preparados para responder a estas exigências legais?
Estão progressivamente mais preparados, mas ainda existe um longo caminho a percorrer, sobretudo nas empresas de menor dimensão, que necessitam de apoio tecnológico e jurídico.
A transição energética avança a diferentes velocidades na Europa. Onde se posiciona Portugal?
Portugal posiciona-se numa fase intermédia. Existe ambição e enquadramento político favorável, mas ainda com limitações ao nível de infraestruturas e custos de adoção.
Quais são hoje os principais entraves à adoção de soluções mais sustentáveis?
O elevado investimento inicial, a falta de infraestrutura (nomeadamente para combustíveis alternativos) e a incerteza quanto ao retorno são os principais entraves.
É possível conciliar sustentabilidade com rentabilidade no curto prazo?
É desafiante, mas possível quando associada à eficiência. Soluções que reduzem consumo de combustível ou otimizam rotas têm impacto direto tanto na sustentabilidade como na rentabilidade.
O relatório aponta a eficiência como motor da sustentabilidade. Como se traduz isso na prática?
Traduz-se na redução de desperdício: menos consumo de combustível, menos quilómetros vazios, melhor manutenção dos veículos e utilização mais eficiente dos recursos disponíveis.
Que indicadores-chave devem os operadores monitorizar para ganhar eficiência?
Consumo médio por veículo, taxa de ocupação, quilómetros em vazio, custos por quilómetro, tempos de inatividade e cumprimento de rotas planeadas.
Que especificidades do mercado português condicionam estas tendências?
A forte presença de PME’s e Micro-empresas, a elevada dependência do transporte internacional e a pressão sobre margens são fatores que condicionam a velocidade de adoção de novas soluções.
Onde estão as principais oportunidades de inovação no transporte rodoviário em 2026?
Na integração de dados, automação de processos, inteligência artificial aplicada à gestão de frota e soluções digitais que simplifiquem a experiência do operador.
A integração e análise de dados serão decisivas para a competitividade das empresas?
Sem dúvida. As empresas que conseguirem transformar dados em decisões terão uma vantagem competitiva significativa num mercado cada vez mais orientado por eficiência.
Que conselho deixa aos gestores de frota para enfrentarem os próximos 12 meses?
Investir em visibilidade e controlo. Quem não medir, não consegue melhorar. Apostar em soluções integradas, formar equipas e tomar decisões baseadas em dados será fundamental para navegar um contexto de elevada incerteza.
Entrevista in revista Eurotransporte n.º 152

