"O meu grande trunfo é a relação com as pessoas"

9 julho 2018

José Domingues da Costa, fundador da Coperol, é a Figura Mais desta edição. Fala-nos de como criou a empresa dedicada ao aftermarket de pesados e revela-nos onde mora o seu coração.

Anselmo Ferreira (Sá) e Paulo Ferreira, dois dos colaboradores mais antigos
Associação Capulana
José Domingues da Costa
José Domingues da Costa _ Coperol
José e a filha Ana Luísa Costa
Coperol

Anselmo Ferreira (Sá) e Paulo Ferreira, dois dos colaboradores mais antigos

Gosta de ser o primeiro a chegar e o último a ir embora da sede da Coperol, em Frielas, "porque um líder tem de dar o exemplo". Diariamente, sobe e desce as escadas, da loja para o escritório, as vezes que forem necessárias para receber e cumprimentar quem ali vem. Distribui elogios aos colaboradores - que deseja que só se vão embora "quando estiverem de bengalinha na mão" - e, à porta, à chegada de uma senhora, não resiste a confirmar a quem quiser ouvir que tem "as clientes mais bonitas". Nesta edição, falamos com José Domingues da Costa, o homem que há 30 anos fundou a Coperol, empresa que hoje se evidencia no aftermarket de pesados em Portugal.

José Domingues da Costa

Sentamo-nos na sala de reuniões com vista para o armazém onde repousam mais de 40 mil referências activas, para dar início uma das raras entrevistas de José Domingues da Costa à imprensa. A princípio mais contido, depois mais à-vontade, mas sempre bem disposto, foi-nos contando olhos nos olhos o percurso de vida que o trouxe até à Coperol, que acarinha como a «quarta filha».

Coperol

Natural de São Miguel de Acha, perto de Castelo Branco, o empresário criou raízes em Moçambique, onde viveu 20 anos e se "fez homem". Terminado o curso de Engenharia Electromecânica, em 1974, já órfão de pai, viu a mãe e o irmão regressarem a Portugal e escolheu ficar, por mais 3 anos, para ser director fabril da maior metalomecânica da antiga colónia lusa, a Cometal Mometal. Um período nada fácil, dada a conjuntura em Moçambique para os portugueses,  mas cujos "anos de experiência foram muito bons, porque me deram alguma estrutura profissional para poder vir para Portugal". De regresso à metrópole, trabalhou em Castanheira do Ribatejo, passou pela Quimigal - onde fez parte da equipa que construiu duas fábricas de ácido nítrico, uma em Alverca, outra no Lavradio - e pela Basmaior até abrir, juntamente com dois amigos, a CBE, uma empresa de peças para semi-reboques, em Rio Maior. Por viver em Lisboa, acabou por vender a quota na sociedade e um ano depois, em 1988, abria a Coperol, em Chelas: "Entendia que à frente de um semi-reboque está um tractor e, portanto, fiz a Coperol com a ideia de abarcar toda a área do camião e reboque. Felizmente correu bem, graças aos meus trabalhadores".

A história, essa, Domingues da Costa resume-a em poucas palavras: "Em dez anos tinha dez delegações e três oficinas. Neste momento são oito lojas e três oficinas (para além de Angola) com 70 colaboradores". Chelas e Leiria acabaram por fechar, estando actualmente a rede consolidada. Foi abrindo lojas consoante as "necessidades locais" e rejeitou dezenas de pedidos para abrir novos espaços, porque toda a gente quer que seja "à esquina da sua casa". Neste momento sente que já não há necessidade de preenchimento do terreno e sabe que chegou quase sempre primeiro aos sítios onde já está implementado: "os meus concorrentes vieram todos atrás", afirma.

Quando começou, "era mais fácil do que hoje em dia", assegura, explicando que "as marcas estão a tomar uma boa parte do negócio com os contratos de manutenção, que fidelizam durante alguns anos. Antigamente as empresas eram donas dos seus próprios carros, hoje trabalham muito com renting". Também a realidade era diferente, se antes "havia profissionais que sabiam fazer tudo, agora já não há muitos e não é fácil de encontrar pessoas para esta actividade". Para José, "os melhores funcionários são os que vestem a camisola e que se dedicam e se empenham", já os clientes, ao contrário do que diz o ditado, nem sempre têm razão: "só têm razão quando provam que a têm. De uma maneira geral, há uma cedência comercial, mas normalmente não têm razão".

Anselmo Ferreira (Sá) e Paulo Ferreira, dois dos colaboradores mais antigos

A loja existe numa lógica de relação qualidade/preço, "o que eu vendo é perfeitamente fiável e raramente tenho reclamações. Muitas vezes é por culpa da utilização, raramente é por culpa do material". Após 2010 - o melhor ano da empresa - a crise levou 40% da facturação da Coperol, e até agora, apesar da lenta recuperação, não se voltaram a atingir os valores de há oito anos. Para continuar de portas abertas, diz o responsável, o segredo é "inventar todos os dias, uma luta minuto a minuto". Criou uma marca própria, homónima da empresa, com cerca de 20 referências, que "não é fácil de vender, porque as pessoas só acreditam depois de comprovar", mas depois "vêem que estão a ganhar dinheiro com a Coperol, são produtos que eu compro directamente ao fabricante". Devido às "variações de mercado", também as linhas de produto disponíveis na marca própria vão evoluindo, pois "há coisas que deixaram de se utilizar e outras que se passaram a utilizar, a ideia é estar sempre na crista da onda".

Pelo menos uma vez por mês tenta estar em cada uma das oito lojas e três oficinas que da empresa e congratula-se de poder contar com "muitos braços direitos dentro da empresa, cada um dentro da sua área". A experiência deu-lhe intuição para o negócio e para as pessoas e o empresário sente que esse é um dos seus grandes trunfos: "é uma mais-valia. Gosto muito de lidar com as pessoas". Leva trabalho para casa, para se concentrar devidamente e, se algum cliente tiver uma urgência fora de horas, não hesita em regressar à loja, sabendo que é um "gesto que fica para a vida".

José e a filha Ana Luísa Costa

Conta com o apoio de Ana Luísa, a única das três filhas que segue as pisadas do pai na Coperol, e que o acompanha na gestão da empresa. Juntos, levam-nos numa visita guiada pelos 3 mil m2 das instalações, onde nos falam da chegada, para breve, da digitalização do stock, com recurso ao mapeamento e identificação por códigos de barra. Pelo meio, conhecemos o mais recente projecto da casa, a empresa Elevamak, de peças e equipamentos de elevação e indústria que, com menos de um ano de existência, está a cimentar o seu lugar no mercado profissional.

Mas é no primeiro andar da sede que está o coração de José Domingues da Costa. Na sala em frente à sua trabalha a esposa, Fátima, que se dedica em exclusivo à obra social fundada pelo casal: a Associação Capulana. É com um orgulho que transborda, que nos conta a felicidade que tem em contribuir para que centenas de crianças possam ter alimentação, educação e saúde numa aldeia que os próprios criaram, a 100km de Maputo: "Aquilo que sou devo a Moçambique e felizmente a minha vida profissional permitiu que eu realizasse um sonho que partilhei com a minha família". O agradecimento à "terra mágica" que o viu crescer, onde fez amigos para a vida, onde jogou, treinou e arbitrou basquetebol e onde volta sempre que pode, é feito assim, "com uma satisfação enorme", há 17 anos, "e quem também quiser ajudar, pode fazê-lo com apenas 20€ por mês, basta ir a www.capulana.pt", afirma. (SAIBA COMO APADRINHAR UMA CRIANÇA AQUI)

Associação Capulana

Se hoje Ndivinduane existe e tem creche, berçário, escola, albergue para estudantes, posto de saúde, furos e depósito de água, é graças ao trabalho de José, Fátima e dos muitos amigos que se juntaram à causa, quer em Portugal, como em Moçambique. Hoje, a aldeia "faz parte da nossa vida"

Considera-se um homem do "bem", a quem só a incompreensão e maldade das pessoas tiram do sério. Leva a sério o lema "não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti" e não deixa recados por dar, "quanto muito conselhos". Das opções que tomou na vida não se arrepende, pois "era o que eu achava correcto, na altura, nessa circunstância. Fi-lo em consciência e estou orgulhoso do que construí".

Agnóstico, José não se coíbe de dizer que o Padre José Maria, que os ajudou a concretizar este projecto através da Casa do Gaiato de Maputo, "foi um santo na terra" e, religiões à parte, se pudesse, daria ainda um abraço ao Papa Francisco, para lhe agradecer o bem que faz ao mundo.

Homem de hábitos, almoça sempre no mesmo restaurante, ali por perto, mas não se recusa a novos desafios, com cautela, "temos que ser ponderados para saber que passos temos de dar para a frente". Mas não é pessimista "tento sempre ver o lado bom das coisas, parto do zero e tudo o que vier é lucro".

Hesita na escolha do seu maior defeito "não sei, sinceramente... se calhar é ter coração de manteiga! Muitas vezes exigir-me-ia ser mais rijo do que sou, mas mesmo quando sei que estou a fazer mal é conscientemente, é para ajudar o outro. A minha maior qualidade é ser amigo de quem é meu amigo".

Termina dizendo que nos tempos livres o que mais gosta é de estar com a família e com os quatro netos. Com mais um a caminho, ficam a faltar outros quatro para cumprir o sonho de ter nove netos para mimar. "Digo-lhes quase todos os dias, mas está difícil! Para mim três foi a conta certa, se as minhas filhas seguirem o meu exemplo, fico todo contente".

 


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