
A Mobilidade é um fator crítico para o desenvolvimento económico e social, e o principal ativo da União Europeia: a livre circulação de bens, serviços e de pessoas. Entre as várias camadas deste desafio, a mobilidade em transportes públicos é aquele que assegura a verdadeira democratização desse desígnio. Só quando for possível circular regularmente no espaço europeu, de forma simples e acessível, é que o podemos dar como certo. Dou como exemplo o trajeto entre Lisboa a Helsínquia (dois extremos), mas claro que temos também de olhar para trajetos de enorme importância como entre Lisboa e Porto, e ainda entre e intra as áreas metropolitanas que é, muitas vezes até, o maior desafio. Circular entre e para cidades de forma simples, não onerosa e segura é a orientação que devemos ter em vista.
A bilhética da mobilidade é um ponto de partida que deve ser tido em conta como muitíssimo relevante, pois existe hoje uma oportunidade desta se transformar de mecanismos de acesso para um bem essencial para a vida do século XXI, sendo o instrumento digital de garantia de circulação segura e estável. Esta bilhética tem de vir acompanhada de plataformas e de meios digitais de comunicação eficazes, que permitam ao utilizador ter “na palma da mão” acesso a percursos, sugestões e alertas.
A transição da bilhética tradicional para modelos digitais avançados começou com a adoção de tecnologias sem contacto, e rapidamente se expandiu para soluções muito mais sofisticadas. Hoje, os sistemas incluem pagamentos EMV (Europay, Mastercard e Visa), bilhética baseada em contas (pagar o bilhete /passe mais útil), integração com carteiras digitais e até modelos BIBO (Be In Be Out), através do qual não é necessário qualquer bilhete, havendo um sistema que deteta automaticamente a presença de um utilizador, à entrada e à saída, através de aplicações e/ou sensores.
Os equipamentos de validação de nova geração incorporam múltiplas tecnologias RFID(Identificação por Radiofrequência), códigos QR, Contactless NFC, EMV e Ultra Wide Band, oferecendo fiabilidade e rapidez superiores. Acrescem funcionalidades como monitorização em tempo real, assistência remota e até reconhecimento biométrico, que reforçam a segurança, a acessibilidade e a eficiência dos sistemas.
Por detrás do que o passageiro vê, há uma revolução igualmente significativa a acontecer nos sistemas. As plataformas multimodais permitem hoje integrar operadores, canais de venda e diferentes meios de transporte, num único sistema escalável, algo essencial num contexto de mobilidade cada vez mais diversificada. A capacidade para processar transações com elevados volumes, gerir tarifários complexos e consolidar dados de operação num ambiente seguro é determinante para garantir um serviço fiável. Estes sistemas sustentam modelos Pay As You Go, baseados em contas EMV, e fornecem informação operacional vital para uma gestão mais eficiente das redes urbanas.
Esta evolução tecnológica sustenta também o avanço das soluções MaaS (Mobility as a Service). A possibilidade de planear, reservar, pagar e viajar, através de uma única plataforma, marca uma mudança estrutural no modo como entendemos a mobilidade. Ao integrar diferentes operadores e meios de transporte num ecossistema unificado, as soluções MaaS tornam a experiência de deslocação mais simples, previsível e centrada no cidadão. Isto permite que as cidades ofereçam aos seus habitantes alternativas mais convenientes ao automóvel privado, promovendo uma mobilidade mais racional e eficiente.
A digitalização da bilhética tem ainda um impacto decisivo na sustentabilidade. A eliminação progressiva de suportes físicos, a redução de processos manuais e a utilização de dados para otimizar operações, contribuem diretamente para a diminuição da pegada ambiental. Sistemas mais inteligentes permitem gerir fluxos com maior precisão, reduzir congestionamentos e tornar redes de transporte mais eficientes no consumo de recursos. Ao mesmo tempo, facilitam políticas de mobilidade mais equitativas, apoiando a criação de cidades mais justas e mais preparadas para os desafios climáticos e sociais atuais.
Por último, temos o desafio de integrar bilhéticas entre cidades e polos urbanos, que permitam circular dentro de um espaço económico de forma simples. Ir de Lisboa a Helsínquia, pode ser simples se tivermos no inter-rail, mas também tem de ser simples ir de Sintra a setúbal com um só bilhete (que é), assim como ir de Tavira a Lagos e depois subir a Bragança.
Para os líderes do setor, a mensagem é clara: investir em sistemas de bilhética inteligentes é muito mais que modernizar o transporte. É preparar o futuro da mobilidade, no qual a eficiência, a sustentabilidade e a experiência do utilizador avançam lado a lado, apoiados por tecnologia fiável, flexível e orientada para o cidadão.

Joana Miranda
Diretora de Administração Pública
e Mobilidade na Indra Group em Portugal